Já muito se falou de praxes,
ainda bem não, quando se sabe de episódios de praxes violentas, este tema volta
à baila. Existem sempre os prós- praxes, são uma integração, blá, blá; e os que
são contra, mais não são que uma humilhação, falta de respeito, blá, blá.
Fui praxada, pela primeira vez,
no Ensino Secundário. As aulas já tinham começado, prá ai há duas semanas, mas
aquele é que era o dia da praxe. Lá me pintaram toda de batom e enfiaram-me um
perfume horroroso. Senti-me integrada?! Nadinha!? Saí de lá o mais depressa
possível, apanhei o primeiro comboio para casa!
Quando entrei para a Faculdade,
numa Faculdade com uma tradição académica muito reduzida, provavelmente, por
ser uma Faculdade associada à esquerda, onde o movimento MATA (Anti tradição
Académica) tinha alguma força. No primeiro dia, besuntei a minha cara de base,
lá fui preparada para a pintura e para a praxe. Mal cheguei fui logo pintada,
com as siglas do curso na testa, foi-me atribuída uma madrinha (que nunca mais
a vi!). Fomos para a primeira aula, assistir a uma aula, com um professor
falso, confesso que entrei em pânico, a lista de bibliografia era gigante, mais
de cinco folhas, e isto era para o primeiro mês. No fim, lá entraram os
Veteranos a rir. O resto das aulas não iriam existir, porque era o primeiro
dia, dia de praxes. Portanto, o primeiro dia seria passado no pátio/jardim da
Faculdade e iríamos passear por Lisboa. Euzinha, que já me bastava as siglas na
testa, informei que não podia ir. Era menor de idade. Ainda gritaram aos meus
ouvidos, ai e tal tens que ir, é obrigatório, senão vais a tribunal de praxe...blá.
Não fui, recusei, disse que quando muito tinham que falar com o meu encarregado
de educação para ver se ele autorizava, portanto, nada feito. Uma das Veteranas
disse que era melhor eu não ir. Lá foram as minhas colegas atadas por uma
corda, para um dia humilhante, com jogos, mas muita falta de respeito, diziam
elas, para o ano é que me vou vingar! Euzinha fui até ao bar, encontrei umas
Veteranas, que ligavam tanto aquilo como nada, levaram-me a comer ao melhor
tasco da zona - aí o Pato Real!- mostraram-me a Faculdade, onde era as
fotocópias, os matraquilhos e tudo o que precisava. Elas não eram do meu curso,
mas fiquei afilhada das duas, ainda hoje falo com elas. Sempre que precisei de
alguma coisa, recorri a elas. No ano seguinte praxei, não de uma forma
humilhante, mas da forma de que gostei, levei as minhas afilhadas a conhecer a
Faculdade, a almoçar no tasco.
É, assim, que eu entendo a praxe,
integração, não humilhação. Nadinha de excrementos, de gritos, de provas
parvas, de posições sexuais, porque, normalmente, as praxes vão sendo
exponenciais e aumentando na sua violência e na falta de respeito pelo ser
humano.
O que se passou no Meco, não foi
uma praxe. Foi um grupo de amigos, que foi de fim de semana, fazer uns jogos,
umas provas, para poder, talvez- sublinhe-se o talvez- subir numa hierarquia da
Comissão de Praxes. Ali não estava ninguém obrigado, foram porque quiseram. Muitas
vezes, estes grupos transformam-se em seitas, tipo de culto - os Maçons enfiam
um avental e fazem uma serie de ritos, mesmíssima coisa!
Foi uma tragédia o que
aconteceu, foi! Que o único sobrevivente deveria contar e falar com as
famílias, sim, para o bem dele e da família. Está a ser julgado, condenado na
praça pública. Mas, ele não é o único culpado, o mau. Todas as pessoas eram
adultas, tiveram consciência do que estavam a fazer e poderiam sempre ter dito
NÃO! Não quiseram porque se sentiam bem a fazer parte de um grupo - dos
populares da Faculdade- mas a escolha de participar foi individual e não se
pode condenar uma pessoa porque disse para os outros fazerem e eles fizeram. Eu
mando-vos saltar para uma piscina em pleno Janeiro, porque não sei quem saltou,
é burrice, falta de personalidade, de arbítrio e talvez algum atrasozinho
saltar, então não pensam por si?!?. Fico triste pelas vidas que se perderam,
pela tragédia que se passou, pelas famílias, mas também pelo único
sobrevivente, porque viverá com um fardo enorme para o resto da sua vida. É bom
discutir-se este tema, seria bom legislar-se as praxes, para que não existam
situações limites, excrementos na cara, punições físicas, humilhações públicas,
mas o Meco Não Foi Praxe, Foi umas Brincadeiras Parvas, Foi uma Tragédia!